Leitura na Educação Infantil: 4 experiências práticas

Conheça 4 experiências de leitura na Educação Infantil para despertar o prazer pelos livros: cantinho da leitura, árvore de livros, leitura de imagens e contação de histórias ao ar livre.

LEITURA E LITERATURA

11/3/20268 min read

Crianças explorando livros pendurados em uma árvore durante uma atividade de leitura na Educação Inf
Crianças explorando livros pendurados em uma árvore durante uma atividade de leitura na Educação Inf

Da leitura de imagens às histórias debaixo da árvore: ideias práticas para aproximar as crianças da literatura na Pré-escola.

A leitura faz parte da rotina da Educação Infantil, mas será que precisamos realizá-la sempre da mesma maneira?

Ao longo dos meus anos como professora da Pré-escola, procurei oferecer diferentes experiências literárias às crianças. Algumas aconteciam diariamente, no cantinho da leitura ou durante a roda de histórias. Outras envolviam mudanças no ambiente, livros diferentes e propostas que despertavam a curiosidade.

Já contamos histórias no gramado, embaixo das árvores, no parque e, certa vez, até penduramos livros nos galhos de uma árvore!

Mas uma coisa sempre esteve presente nessas experiências: o desejo de aproximar as crianças dos livros e fazer da leitura um momento prazeroso.

Neste artigo, compartilho quatro experiências que fizeram parte da minha prática e que podem inspirar outros professores a explorar a literatura com crianças de 4 e 5 anos.

1. Cantinho da leitura: livros ao alcance das crianças

Ter um espaço de leitura na sala é uma maneira simples e importante de incentivar o contato diário com os livros.

Na minha sala, procurava manter os livros organizados em um espaço acessível, na altura das crianças, para que pudessem escolher e manusear os exemplares com autonomia.

Esse espaço não era utilizado apenas nos momentos planejados de leitura. As crianças também podiam explorar os livros, observar as ilustrações e compartilhar suas descobertas com os colegas.

Duas crianças sentadas à mesa exploram juntas as ilustrações de um livro infantil.
Duas crianças sentadas à mesa exploram juntas as ilustrações de um livro infantil.

Acervo pessoal -Prô Edi

Acervo pessoal - Prô Edi

Como incentivar essas experiências?

  • Disponibilize livros conhecidos e outros que as crianças ainda não exploraram.

  • Permita que observem as imagens e criem suas próprias narrativas.

  • Incentive o reconto de histórias, sem exigir que repitam exatamente o texto original.

  • Valorize quando uma criança deseja contar uma história aos colegas.

  • Ofereça momentos de leitura em duplas ou pequenos grupos.

O que podemos explorar?

Essas situações favorecem a oralidade, a imaginação, a organização de narrativas, a memória, a escuta e as interações entre as crianças.

É importante lembrar que ler imagens e recontar histórias não é o mesmo que ler convencionalmente as palavras escritas. Entretanto, essas experiências fazem parte da formação do leitor e da aproximação com a linguagem escrita.

Na Pré-escola, as crianças participam ativamente da cultura escrita muito antes de dominar o sistema alfabético.

3. Uma árvore cheia de livros: quando a leitura desperta a curiosidade

Como organizar

Não é necessário ter uma biblioteca grande ou móveis sofisticados. Uma estante baixa, caixas organizadoras ou cestos podem ser utilizados para disponibilizar os livros.

O importante é que as crianças consigam visualizar as opções e tenham liberdade para escolher.

Uma dica que sempre procurei colocar em prática era renovar os livros disponíveis.

A cada semana, fazia pequenas mudanças no acervo. Não retirava todos os livros, pois algumas crianças gostavam de revisitar suas histórias preferidas. Acrescentava novos títulos e, sempre que possível, livros com características diferentes, como:

  • Livros com ilustrações em relevo e texturas.

  • Livros-brinquedo, inclusive aqueles com fantoches.

  • Livros com formatos e tamanhos diferentes.

  • Livros com abas, dobraduras ou elementos interativos.

  • Livros ilustrados, histórias acumulativas e contos conhecidos.

Essas novidades despertavam a curiosidade e renovavam o interesse pelo espaço.

O que podemos explorar?

O cantinho da leitura favorece a autonomia, a escolha, o cuidado com os materiais, a observação das imagens e a interação entre as crianças.

Também oferece oportunidades para conhecer diferentes tipos de livros e desenvolver atitudes próprias de leitores, como folhear, observar a capa, acompanhar a sequência das páginas e revisitar histórias conhecidas.

2. Pequenos leitores, grandes narradores: quando as crianças contam histórias

Uma das experiências mais interessantes que vivenciei na Pré-escola acontecia quando as próprias crianças assumiam o papel de contadoras de histórias.

Durante a rotina, reservava momentos em que elas escolhiam livros para que eu lesse ou contasse as histórias. Em outras situações, podiam manusear livremente os exemplares, observar as imagens e compartilhar suas interpretações.

Eu costumava dizer:

"Vocês sabem ler, sim! Ainda não sabem ler as palavras, mas conseguem descobrir o que acontece na história observando os desenhos."

Essa era uma maneira de valorizar os conhecimentos que as crianças já possuíam e incentivá-las a explorar os livros sem receio.

Algumas folheavam as páginas e inventavam narrativas a partir das ilustrações. Outras recontavam histórias que já conheciam, utilizando expressões, entonações e detalhes que provavelmente haviam aprendido ao ouvir essas narrativas em outros momentos.

Lembro especialmente de crianças que pegavam um livro, sentavam-se no tapete e começavam a contar histórias para os colegas.

Algumas contavam com tanta desenvoltura que os próprios amigos buscavam outros livros e pediam:

"Fulano, lê pra gente!"

E assim surgiam pequenos momentos de leitura compartilhada, sem que eu precisasse organizar ou dirigir a situação.

Duas crianças compartilham um livro ilustrado em um espaço externo da escola.
Duas crianças compartilham um livro ilustrado em um espaço externo da escola.
Crianças observam e manuseiam livros infantis suspensos por cordões nos galhos de uma árvore.
Crianças observam e manuseiam livros infantis suspensos por cordões nos galhos de uma árvore.

Acervo pessoal - Prô Edi

Essa foi uma experiência diferente que realizamos durante um projeto de leitura na escola.

Certa manhã, chegamos mais cedo e preparamos uma surpresa: penduramos diversos livros infantis nos galhos de uma árvore, em um espaço por onde as crianças passavam ao chegar.

A proposta era simples: oferecer uma experiência de leitura diferente, despertando a curiosidade e permitindo que as crianças explorassem os livros livremente.

Quando começaram a chegar, muitas crianças paravam e observavam de longe.

Afinal, não era todos os dias que encontravam livros pendurados em uma árvore!

Nós dizíamos que poderiam se aproximar e explorar os livros. Aos poucos, a curiosidade foi vencendo a timidez inicial.

As crianças começaram a escolher os livros, folhear as páginas e compartilhar suas descobertas.

O mais interessante foi observar a interação entre crianças de diferentes idades.

Algumas exploravam os livros sozinhas, outras se reuniam em duplas ou trios. Crianças maiores liam ou contavam histórias para as menores, criando momentos espontâneos de troca e convivência.

Os livros permaneceram disponíveis durante todo o dia, permitindo que crianças de diferentes turmas participassem da experiência.

Mais tarde, também levei minha turma para explorar aquele espaço com tranquilidade.

Foi uma experiência simples, mas muito significativa!

Como organizar uma árvore de livros?

Materiais:

  • Livros infantis variados, preferencialmente resistentes.

  • Barbantes ou cordões adequados para prender os livros.

  • Uma árvore com galhos acessíveis e seguros.

  • Um espaço organizado para a circulação e exploração das crianças.

Como desenvolver:

  1. Escolha uma árvore em um espaço seguro da escola.

  2. Selecione livros com diferentes histórias, tamanhos e ilustrações.

  3. Prenda os livros de maneira que possam ser alcançados e manuseados pelas crianças, sem danificá-los.

  4. Organize os cordões para evitar riscos de enrosco ou tropeços e mantenha a atividade supervisionada.

  5. Permita que as crianças descubram a proposta e explorem os livros no próprio ritmo.

Não é necessário transformar a experiência em uma atividade dirigida. O objetivo principal é criar um ambiente convidativo, no qual os livros despertem o interesse e favoreçam encontros espontâneos.

Dica da Prô Edi: se sua escola não possui árvores, a proposta pode ser adaptada para um varal de livros, uma exposição em um espaço coberto ou outro ambiente acessível. O importante é criar uma apresentação diferente e segura.

O que podemos explorar?

A experiência favorece a curiosidade, a autonomia, a interação entre crianças de diferentes idades, a exploração de livros e o compartilhamento de narrativas.

Também nos mostra como a organização do ambiente pode ampliar as possibilidades de aprendizagem.

Às vezes, uma pequena mudança na maneira de apresentar os materiais é suficiente para despertar um novo interesse.

4. Histórias fora da sala: outros espaços, novas experiências

A contação de histórias não precisa acontecer sempre dentro da sala de aula. Pode aproveitar diferentes espaços da escola para realizar momentos de leitura e contação.

Já contamos histórias no gramado, embaixo de árvores, no parque e em outros ambientes externos.

Esses momentos eram planejados. Algumas vezes utilizava o próprio livro, mostrando as ilustrações durante a narrativa. Em outras, recorria a objetos, gestos, sons e à participação das crianças.

Uma história que funcionava muito bem dessa maneira era Os Três Porquinhos.

Eu contava a narrativa sem utilizar o livro e convidava as crianças a participar.

Quando o lobo aparecia, elas ajudavam a soprar!

Também reproduziam os sons dos passos e outros acontecimentos da história.

Era interessante perceber como participavam da narrativa, aguardavam determinados momentos e se envolviam com os personagens.

Como organizar uma contação ao ar livre?

Escolha um espaço tranquilo e seguro, onde as crianças possam se acomodar confortavelmente.

Antes da atividade, selecione a história e pense em como apresentá-la.

Você pode utilizar:

  • O próprio livro, explorando as ilustrações.

  • Objetos relacionados aos personagens ou acontecimentos.

  • Sons produzidos com a voz e o corpo.

  • Gestos e movimentos que representem partes da narrativa.

  • Pequenas participações das crianças durante a história.

Nem toda contação precisa utilizar recursos diferentes. Às vezes, um bom livro e uma professora disponível para compartilhar a história são suficientes para criar um momento especial.

O que podemos explorar?

A contação de histórias favorece a atenção, a escuta, a imaginação, a ampliação do vocabulário e a compreensão das narrativas.

Quando as crianças participam com sons, gestos e movimentos, também encontram outras maneiras de expressar suas interpretações.

Escutar uma história não significa necessariamente permanecer imóvel e em silêncio. A escuta também pode acontecer com envolvimento, expressão corporal e participação.

O importante é que essas intervenções contribuam para a experiência literária, sem transformar cada história em uma sequência de comandos.

Literatura na Pré-escola e a BNCC

As experiências com livros e histórias dialogam especialmente com o campo de experiências Escuta, fala, pensamento e imaginação, previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Para as crianças pequenas, de 4 anos a 5 anos e 11 meses, podemos destacar objetivos como:

  • EI03EF01: Expressar ideias, desejos e sentimentos sobre suas vivências, por meio da linguagem oral e escrita (escrita espontânea), de fotos, desenhos e outras formas de expressão.

  • EI03EF03: escolher e folhear livros, orientando-se por temas e ilustrações e tentando identificar palavras conhecidas.

  • EI03EF04: Recontar histórias ouvidas e planejar coletivamente roteiros de vídeos e de encenações, definindo os contextos, os personagens, a estrutura da história.

  • EI03EF05: recontar histórias ouvidas para produção de reconto escrito, tendo o professor como escriba.

Essas vivências também dialogam com outros campos de experiências, especialmente O eu, o outro e o nós e Corpo, gestos e movimentos.

Entretanto, é importante lembrar que os objetivos de aprendizagem não precisam ser trabalhados de maneira isolada.

Uma mesma experiência literária pode envolver oralidade, imaginação, interação, autonomia e expressão corporal.

O prazer pela leitura começa com as experiências que oferecemos

Ao longo dos anos, percebi que aproximar as crianças da literatura não depende apenas da quantidade de livros disponíveis ou da frequência das histórias contadas.

A maneira como apresentamos os livros, os espaços que organizamos e as oportunidades de participação que oferecemos também fazem diferença.

Um livro escolhido no cantinho da leitura, uma história compartilhada entre colegas, uma contação embaixo da árvore ou a surpresa de encontrar livros pendurados nos galhos podem se transformar em experiências marcantes.

E nem sempre precisamos propor uma atividade depois da leitura.

Ouvir uma boa história, observar as ilustrações, imaginar personagens e compartilhar descobertas já são experiências valiosas.

Na Pré-escola, nosso papel é oferecer oportunidades para que as crianças descubram, aos poucos, o prazer de conviver com os livros e com as histórias.