Massinha na pré-escola: muito além de amassar e modelar
Massinha não precisa ser apenas um momento de criação livre. Com diferentes materiais, desafios e intencionalidade, um recurso tão simples pode acompanhar muitas aprendizagens durante todo o ano. Compartilho algumas experiências da minha prática e um material gratuito para experimentar com sua turma.
PRÁTICAS PEDAGÓGICAS
8/26/20266 min read


A massinha de modelar sempre foi um recurso muito presente na minha sala. Eu a utilizava durante todo o ano, tanto nos momentos de criação livre quanto em propostas com objetivos mais específicos.
É um material simples, conhecido e que geralmente encanta as crianças. Mas, dependendo da maneira como o professor o apresenta e das possibilidades que oferece, pode se transformar em um recurso pedagógico muito rico.
Com a massinha podemos trabalhar coordenação motora fina, criatividade, linguagem, formas, números e quantidades, esquema corporal, histórias, conhecimentos relacionados aos projetos da turma e muitas outras aprendizagens.
Mas antes de pensar em tudo isso, existe uma etapa que às vezes esquecemos:
a criança também precisa aprender o que pode fazer com a massinha.
No começo, é preciso ensinar possibilidades
Até a tesoura pode entrar na brincadeira
Nem sempre a massinha precisa ser uma atividade livre
No início do ano, principalmente com as crianças do Pré I, eu percebia que muitas ainda não sabiam manusear bem a massinha. Por isso, começava pelo mais simples.
Ensinava a fazer bolinhas, cobrinhas, apertar, achatar, juntar partes... Ia mostrando algumas possibilidades e deixando que experimentassem.
Os acessórios também não apareciam todos de uma vez. Eu preferia introduzi-los aos poucos. Em uma proposta colocava tesouras plásticas. Em outra, forminhas. Depois rolinhos. Em outros momentos, cartões visuais. Essa variedade também ajudava a evitar que a experiência com massinha se tornasse sempre igual.
E havia dias em que eu não oferecia acessório nenhum. Entregava apenas a massinha e dizia:
— Hoje vocês vão usar a criatividade. Vou tirar fotos!
Eles caprichavam nos detalhes.
Ao longo do tempo, aquela criança que inicialmente precisava que o adulto mostrasse como fazer uma simples bolinha já tinha um repertório muito maior para criar.
Ensinar algumas possibilidades no começo não significa dizer à criança o que ela deve produzir. Pelo contrário: quanto mais experiências ela tem com o material, mais recursos passa a ter para criar sozinha.
Uma utilização que considero muito interessante é oferecer massinha para crianças que ainda estão desenvolvendo a habilidade de recorte. Cortar papel exige bastante controle da tesoura. Para algumas crianças, principalmente no início, isso pode ser difícil e frustrante.
Com a massinha podemos começar de outra maneira. A criança faz uma cobrinha, por exemplo, e vai cortando pequenos pedaços com uma tesoura adequada para uso infantil.
Ela pratica o movimento de abrir e fechar a tesoura e vai ajustando a maneira de segurá-la, mas encontra um material que oferece menos resistência que o papel.
Não substitui as experiências de recorte.
É mais uma possibilidade para preparar e fortalecer essa habilidade de maneira lúdica e menos frustrante.
Eu gostava muito dos momentos de criação livre, mas também utilizava a massinha com objetivos bem definidos. Ela podia complementar uma proposta que já estávamos desenvolvendo ou até se transformar na atividade principal daquele dia.
Algumas possibilidades que utilizei com meus alunos foram:
representar o corpo;
trabalhar o nome e as letras;
explorar números e quantidades;
representar personagens ou situações de uma história;
trabalhar alimentação, reproduzindo, por exemplo, o prato preferido;
representar animais;
explorar plantas e outros elementos da natureza;
trabalhar formas, cores e noções espaciais.
O material era o mesmo.
O que mudava era a intenção e a maneira como eu organizava a proposta.




Os cartões eram outro recurso que eu gostava de associar à massinha. Eles podem apresentar uma figura, uma forma, uma letra, um número ou apenas parte de uma imagem que a criança deverá completar.
Dependendo da proposta, ajudam a explorar coordenação motora fina, formas, contagem, cores, noção espacial e outros conhecimentos.
Mas gosto especialmente quando o cartão não traz tudo pronto. Em vez de mostrar exatamente aquilo que a criança deve reproduzir, ele pode oferecer um ponto de partida.
Foi assim em duas experiências que ficaram marcadas na minha prática.
Os acessórios mudam a experiência
Cortadores, tesouras plásticas, rolinhos, pratos, panelinhas, talheres de plástico, elementos naturais, olhinhos, botões, lantejoulas...
A escolha depende muito do que queremos proporcionar.
Palitos e pedrinhas podem transformar uma criação sobre animais.
Pratinhos e talheres podem fazer surgir um restaurante.
Olhinhos e outros pequenos elementos podem dar personalidade a um personagem.
Mas eu não vejo necessidade de colocar todos os acessórios disponíveis em todas as propostas.
Às vezes, mudar os materiais já é suficiente para provocar uma nova maneira de brincar.
E os cartões visuais?
Uma dessas experiências surgiu a partir da história O domador de monstros, de Ana Maria Machado.
A história apresenta um menino que sente muito medo e vê monstros em seu quarto. Até que encontra uma maneira de enfrentar esse medo: quando aparece um monstro, ele inventa outro ainda mais assustador.
Depois de explorarmos a história, levei cartões com silhuetas de monstros. As imagens não estavam completas. E essa era justamente a graça.
As crianças precisavam transformar aquelas silhuetas em seus próprios monstros usando massinha e diferentes acessórios.
Surgiram monstros com muitos olhos.
Outros ganharam rabos.
Apareceram bocas diferentes e detalhes que eu jamais teria imaginado por elas.
Depois, as crianças deram nomes às suas criações. Fotografamos os monstros e expusemos os trabalhos na parede.
A massinha estava ali, mas a proposta já havia ido muito além da modelagem. Havia literatura, imaginação, oralidade, criação e a possibilidade de cada criança produzir algo verdadeiramente seu.
Os monstros ganharam muitos olhos, rabos e até nomes
Quando os bichinhos do jardim saíram da pesquisa e foram para a massinha
Para experimentar com sua turma
Outra experiência aconteceu durante um projeto sobre Bichinhos do Jardim. Depois das pesquisas e de outras propostas relacionadas ao tema, utilizamos a massinha para representar alguns dos animais que estávamos conhecendo.
Organizei as crianças em grupos e distribuí cartões diferentes. Cada cartão apresentava parte do corpo de um bichinho, que precisava ser completado. Além da massinha, ofereci materiais como palitos, pedrinhas, pedaços de papéis coloridos, olhinhos e botões.
Cada grupo encontrou suas próprias soluções. Para completar o bichinho, era preciso recuperar aquilo que já havíamos observado e aprendido: como é seu corpo? O que está faltando? Tem patas? Tem asas? Como podemos representar determinada parte? Quem vive aqui?
Quando terminaram, incentivei a circular pela sala para observar as produções dos colegas.
E, claro, tiramos muitas fotos.
A atividade não terminou quando o bichinho ficou pronto. Olhar o trabalho do outro também fazia parte da experiência.
Pensando nessas duas experiências, preparei um pequeno material para quem quiser experimentar algumas dessas possibilidades com as crianças.
Desafios com massinha — Monstros e Bichinhos do Jardim
São cartões inspirados nas propostas que utilizei em sala:
Monstros para completar
Silhuetas que podem ganhar olhos, bocas, cabelos, rabos, braços e tudo aquilo que a imaginação das crianças inventar.
Bichinhos do jardim
Cartões com partes dos bichinhos para que as crianças observem, completem e criem utilizando massinha e outros materiais.
Os cartões não foram pensados como modelos para copiar. São pontos de partida para observar, imaginar, conversar e criar.
Essa massinha tem uma textura diferente e pode ser preparada pelo professor para utilizar em diversas propostas.
Ingredientes
3 xícaras de farinha de trigo comum;
3 xícaras de areia;
¾ de xícara de sal;
6 colheres de suco de limão ou vinagre;
3 colheres (sopa) de óleo;
540 ml de água quente.
Como fazer
Coloque a farinha, a areia, o sal e o suco de limão ou vinagre em uma tigela grande e misture.
Acrescente o óleo e a água quente e misture bem até formar uma massa.
Amasse e, se necessário, acrescente um pouco mais de areia até obter uma massa macia e elástica, mas que não fique pegajosa.
Guardada em recipiente bem fechado, pode ser conservada por aproximadamente 2 a 3 semanas.
Um recurso simples, mas de muitas possibilidades
Talvez seja essa uma das coisas de que mais gosto na massinha.
Não precisamos inventar um recurso novo a cada aula para proporcionar experiências diferentes. Em um dia, ela pode estar disponível livremente. Em outro, vem acompanhada de tesouras. Depois aparecem rolinhos, elementos naturais ou cartões.
Pode ajudar a representar uma história, um animal que estamos estudando, o próprio corpo, uma quantidade ou uma ideia que surgiu da imaginação da criança.
E também pode ser simplesmente massinha.
Depois de tantas experiências, às vezes basta colocá-la sobre a mesa e dizer:
— Hoje vocês vão usar a criatividade.
E observar o que acontece. Porque a riqueza de um recurso pedagógico nem sempre está na quantidade de coisas que oferecemos.
Muitas vezes, está nas possibilidades que ajudamos a criança a descobrir — e no espaço que depois deixamos para que ela faça suas próprias escolhas.
Uma opção diferente: massinha de areia
Prô Edi - Pré-Escola
30 anos de prática pedagógica e afeto na educação infantil.
© 2026 Prô Edi - Pré-Escola-30 anos dedicados à sala de aula com afeto e orientação prática.
