Antes de escrever o nome, a criança precisa saber que ele conta uma história

Trabalhar o nome na Pré-escola vai muito além de ensinar letras e traçados. Neste relato, compartilho experiências e propostas que ajudam a criança a conhecer a história do seu nome, reconhecer-se por meio dele e, aos poucos, avançar em sua leitura e escrita.

9/3/20267 min read

Atividade sobre a história do nome realizada com crianças da Pré-escola.
Atividade sobre a história do nome realizada com crianças da Pré-escola.

Trabalhar o nome na Pré-escola vai muito além de ensinar a criança a reconhecer letras ou copiar uma ficha.

O nome faz parte da sua identidade. A criança precisa compreender sua história, perceber que é um indivíduo dentro de um círculo social, que pertence a uma família, que já viveu outras experiências — muitas chegam ao Pré I vindas da creche — e que está crescendo e aprendendo muitas coisas.

Reconhecer o próprio nome é uma dessas aprendizagens. Mas será que a criança sabe que existe uma história por trás dele? Quando pergunto:

“Você sabe por que tem esse nome?”

ou

Quem escolheu esse nome para você?”

a maioria não sabe responder.

Antes mesmo de começar uma pesquisa com as famílias, porém, algumas experiências que vivi em sala me mostraram o quanto conversar sobre o próprio nome pode ser importante.

“Meu nome é neném da mamãe”

Durante minha trajetória na Pré-escola, encontrei algumas crianças que não sabiam dizer o próprio nome. Já ouvi respostas como: “Eu não sei. Minha mãe me chama de filho.” “Meu nome é bebê.”

Mas uma dessas histórias ficou especialmente marcada na minha memória. Quando perguntavam seu nome, ele respondia com toda a certeza:

“Eu sou o neném da mamãe.”

Nos primeiros dias, enquanto eu apresentava as fichinhas com os nomes das crianças, chegou a vez dele. Mostrei sua ficha e disse: "Luan.”

Ele não aceitou. Chegou a chorar:

“Meu nome é neném!”

Expliquei novamente que todos nós temos um nome, que ele está registrado em nossos documentos e que, às vezes, nossos pais e familiares nos chamam por apelidos carinhosos. Mas isso não muda o nosso nome.

Foram necessários alguns dias para que Luan aceitasse ser chamado pelo nome e começasse a responder “Luan” quando alguém perguntava como ele se chamava.

Algum tempo depois, quando começamos a trabalhar o sobrenome, surgiu um novo conflito:

“Meu nome não é esse!”

Meu nome não é esse!”

Para ele, havia outra resposta:

“Eu sou o Luan da mamãe.”

Novamente precisamos conversar e dar tempo para que compreendesse e se reconhecesse também pelo nome completo.

Quando contei essa história aos pais, eles riram muito. Explicaram que Luan era filho único, neto único. Era muito paparicado por toda a família e convivia quase exclusivamente com adultos.

Ele realmente era, para todos, “o neném”.

Em outra turma, vivi uma situação bem diferente.

Todo o material de Maria Luisa chegou à escola identificado como Malu. A mãe explicou que era assim que ela gostava de ser chamada.

Mas não havia nenhuma dúvida para a criança sobre seu próprio nome.

Quando alguém perguntava, ela respondia tranquilamente:

“Eu sou a Maria Luisa, mas pode me chamar também de Malu.”

Duas situações muito diferentes, mas que sempre me fazem pensar sobre a importância de conversar com a criança sobre identidade — tanto na escola quanto em casa.

Um apelido carinhoso faz parte das relações familiares e também pode fazer parte da história da criança. O importante é que ela vá compreendendo quem é, reconhecendo seu nome e entendendo que ele também conta um pouco da sua história.

“Eu sou Maria Luisa, mas pode me chamar de Malu”

É a partir dessa ideia que gosto de envolver as famílias.

Organizo algumas perguntas simples e envio para casa. Quero que a criança descubra quem escolheu seu nome, por que ele foi escolhido e outras curiosidades que a família queira contar.

Peço aos pais ou responsáveis que contem essa história para a criança, para que depois ela possa compartilhá-la com os colegas. Também peço que registrem as respostas por escrito, pois esse registro me ajuda caso ela esqueça algum detalhe. Junto com a pesquisa, solicito uma foto de quando era bebê.

Quando as pesquisas retornam, fazemos a socialização na roda de conversa. As crianças mais desinibidas, especialmente quando a família fez a “lição de casa” contando a história para elas, geralmente querem contar tudo com detalhes.

Com as mais tímidas, vou fazendo perguntas e recorrendo ao registro escrito pela família para ajudá-las.

E todos querem mostrar sua foto de bebê.

“Olha, eu não tinha cabelo!”

“Que fofinho!”

“Que bebê lindo!”

Os comentários surgem espontaneamente.

Elas observam as fotos umas das outras, percebem como eram pequenas e como cresceram. E há algo muito bonito nesse momento: todas se sentem importantes e valorizadas.

As famílias geralmente capricham na escolha das fotos e aquela pequena história, que até então pertencia ao ambiente familiar, passa a ser compartilhada com o grupo.

Quando a turma é grande, prefiro fazer essa conversa em dois momentos para que não fique cansativa.

Vamos descobrir a história do nosso nome?

Mais do que uma exposição de trabalhos, aquele mural conta histórias:

quem sou eu, de onde veio meu nome e quanto eu já cresci.

Depois da roda, explico que vamos utilizar todo aquele material para produzir um trabalho que ficará exposto no mural. Assim, outras crianças e pessoas da escola também poderão conhecer um pouco da história de cada um e observar como cresceram.

Digito o pequeno texto enviado pela família e organizamos uma foto de bebê ao lado de uma foto atual.

Para finalizar, as crianças decoram as bordas utilizando carimbos feitos com os próprios dedinhos.

Uma história que vai para o mural

Registro da atividade “A história do meu nome”: pesquisa com a família, foto de bebê e foto atual.
Registro da atividade “A história do meu nome”: pesquisa com a família, foto de bebê e foto atual.

Começamos a brincar com o nome

A partir daí, continuamos avançando no reconhecimento do nome escrito.

Gosto muito de trabalhar com fichinhas móveis e prefiro escrever os nomes à mão. Penso que, dessa maneira, a escrita fica mais próxima daquela que vou apresentar às crianças no dia a dia.

Mesmo tendo os nomes fixos no painel da chamada, continuo utilizando as fichas. Elas aparecem na chamada, nas brincadeiras, nos jogos e sempre que a criança precisa de apoio para escrever.

Isso é importante porque a criança não deve reconhecer seu nome apenas pela posição que ele ocupa no painel. Ela precisa encontrá-lo em diferentes lugares e situações.

No começo, entrego a ficha diretamente. Depois, aumento um pouco o desafio: coloco várias fichas sobre uma mesa e cada criança precisa procurar a sua.

Mais adiante, incentivo a escrita sem esse apoio.

E, aos poucos, vamos avançando até chegar ao nome completo. Isso não quer dizer que as crianças evoluem todas ao mesmo tempo. Costumo levar em conta o seu rítmo de aprendizagem.

A grande maioria das crianças que chega ao Pré I ainda não sabe escrever o nome. Muitas também estão desenvolvendo a coordenação necessária para realizar o traçado das letras. Por isso, não começo cobrando uma escrita perfeita na folha.

Escrevemos no chão.

Na areia.

No papel kraft.

No quadro — elas adoram escrever no quadro!

Vamos experimentando os movimentos necessários para formar as letras e trabalhando individualmente o traçado quando necessário.

Nesse processo, a letra inicial ganha destaque: “Tiago começa com T.”

Mas lápis e giz são apenas algumas possibilidades.

Também fazemos o nome com massinha, alfabeto móvel, rolinhos de papel, peças de Lego, letras recortadas de revistas, pincel e diferentes materiais que estiverem disponíveis.

Antes de dominar o lápis, a criança pode experimentar, construir, tocar, observar e brincar com as letras do próprio nome.

Quantas descobertas cabem em um nome?

Escrever porque existe um motivo

Antes do lápis, há muitas maneiras de escrever

Não costumo utilizar folhas em que a criança precisa repetir seu nome várias vezes apenas para treinar.

Prefiro que essa escrita apareça cumprindo uma função. Terminamos uma atividade e precisamos saber de quem ela é. Então precisamos escrever o nome.

No início, a criança utiliza a fichinha como apoio. Com o tempo, começa a reconhecer e nomear a inicial, lembrar algumas letras e perceber a sequência em que aparecem.

Depois, vou incentivando: “Será que hoje você consegue sem olhar a fichinha?”

Aos poucos, ela precisa cada vez menos do modelo. Até que um dia simplesmente escreve.

Essa conquista vai acontecendo no cotidiano, pela repetição, sim, mas por uma repetição com sentido.

Quando as crianças começam a conhecer bem os nomes da turma, podemos ampliar os desafios.

Comparamos os nomes que têm mais letras e os que têm menos.

Procuramos crianças cujos nomes começam com a mesma letra.

Observamos letras que aparecem em diferentes nomes.

Completamos nomes com letras que estão faltando.

Também gosto de entregar tiras de papel colorido para que a criança cole uma para cada letra do seu nome. Assim, ela precisa observar e comparar a quantidade de letras e tiras de papel.

São propostas simples, mas que permitem explorar letras, quantidades, comparação, percepção visual e muitas outras aprendizagens a partir de algo que já tem significado para a criança.

O nome é mais do que uma palavra para copiar

Quando penso em todo esse percurso, volto ao começo.

Antes de pedir que uma criança escreva seu nome, precisamos ajudá-la a compreender que aquele nome é dela.

Que alguém o escolheu.

Que existe uma história por trás dele.

Que os apelidos carinhosos também podem fazer parte dessa história, mas que ela tem um nome que a identifica.

Que aquele bebê da fotografia cresceu.

E que agora, enquanto aprende tantas coisas novas, está também aprendendo a reconhecer, dizer e escrever uma das palavras mais importantes da sua vida:

o próprio nome.