Como contemplar os campos de experiência BNCC na avaliação descritiva
Veja como contemplar os campos de experiência BNCC na avaliação descritiva sem transformar o relatório em uma lista de habilidades. Artigo com com exemplos práticos, observações e material em PDF.
APRENDIZADOS DA PRÁTICA
10/20/202610 min read


Chega o período das avaliações e uma dúvida pode surgir: como contemplar os campos de experiência da BNCC na avaliação descritiva sem transformar o relatório em uma lista de habilidades?
Ao longo dos meus anos trabalhando com a Pré-escola, a forma de fazer a avaliação descritiva foi mudando. Primeiro, nossos relatórios eram organizados considerando aspectos do desenvolvimento infantil. Com a BNCC, passamos a orientar o olhar pelos campos de experiência. Mais recentemente, o portfólio também ganhou espaço e tornou esse acompanhamento mais organizado.
Os instrumentos e a maneira de apresentar a avaliação mudaram — e podem continuar mudando. Mas há algo que considero essencial: a avaliação precisa contar o percurso daquela criança.
Os campos de experiência ajudam a organizar o olhar do professor, mas não podem fazer desaparecer as vivências, as conquistas, as dificuldades e as particularidades de cada criança.
Os campos de experiência não são cinco itens para preencher
Um equívoco que pode acontecer ao elaborar a avaliação é pensar nos cinco campos como áreas separadas que precisam ser preenchidas uma a uma.
Na prática da Educação Infantil, não é assim que as experiências acontecem.
Em uma roda de conversa, por exemplo, a criança pode estar desenvolvendo a linguagem oral, aprendendo a esperar sua vez de falar, ouvindo os colegas, expressando sentimentos, organizando acontecimentos no tempo e construindo sua identidade.
Uma única experiência pode envolver diferentes campos.
Por isso, gosto de pensar nos campos de experiência como lentes que ajudam o professor a olhar para aquilo que a criança vive, faz, expressa e aprende no cotidiano.
A pergunta deixa de ser apenas:
“O que preciso escrever neste campo?”
e passa a ser:
“O que observei desta criança durante este período e o que isso revela sobre seu percurso?”
Essa mudança parece pequena, mas faz muita diferença na avaliação.
Antes dos campos de experiência, existe uma criança para observar
Acervo pessoal - Prô Edi
Os cinco campos ajudam a direcionar nosso olhar. Isso não significa observar tudo, o tempo todo, nem transformar cada situação vivida pela criança em uma avaliação.
Com o tempo, aprendemos a reconhecer esses campos nas experiências que já acontecem naturalmente na rotina.
O eu, o outro e o nós
Este campo está muito presente nas relações cotidianas.
Observe, por exemplo, como a criança se relaciona com outras crianças e adultos, como participa do grupo, expressa sentimentos e necessidades, resolve pequenos conflitos, compartilha materiais, lida com regras e combinados e conquista autonomia.
O parque e as brincadeiras livres são especialmente ricos para essas observações.
Em vez de registrar apenas:
“Relaciona-se bem com os colegas.”
podemos buscar aquilo que caracteriza aquela criança:
“Nas brincadeiras em pequenos grupos, costuma propor ideias aos colegas e participa da organização das brincadeiras. Diante de conflitos, ainda necessita algumas vezes da mediação do adulto para encontrar soluções.”
O campo é o mesmo para toda a turma. A maneira como cada criança o vivencia é que torna a avaliação individual.
Corpo, gestos e movimentos
Não precisamos pensar apenas em circuitos ou atividades motoras planejadas.
Observe como a criança corre, pula, dança, dramatiza, utiliza os espaços, enfrenta desafios corporais e participa das brincadeiras. Também podemos acompanhar sua autonomia nos cuidados pessoais e o desenvolvimento das habilidades manuais.
No cotidiano, podemos observar ainda como utiliza tesoura, pincéis, tintas e outros materiais, como participa de jogos e brincadeiras e como desenvolve hábitos relacionados ao cuidado consigo mesma. Esses foram, inclusive, aspectos que apareceram em avaliações que utilizei em minha prática. São situações comuns da rotina que nos ajudam a compreender o percurso da criança.
Traços, sons, cores e formas
Aqui, mais importante do que olhar apenas para o desenho pronto é observar o processo.
Como a criança explora tintas? Que materiais escolhe? Mistura cores? Experimenta diferentes traços? Cria? Imita? Demonstra interesse por música e ritmo? Como suas produções vão se modificando ao longo do tempo?
Uma sequência de desenhos guardada no portfólio, por exemplo, pode revelar muito mais sobre o desenvolvimento da criança do que uma produção isolada.
No portfólio, produções, fotografias e pequenas observações ajudam a tornar essas mudanças visíveis.
Escuta, fala, pensamento e imaginação
Este campo está presente em muitos momentos da rotina: rodas de conversa, histórias, reconto, dramatizações, brincadeiras de faz de conta, músicas e situações espontâneas de comunicação.
Podemos observar como a criança se comunica, organiza suas ideias, relata acontecimentos, escuta os colegas, participa das conversas, amplia seu vocabulário, cria histórias e demonstra interesse pela linguagem escrita.
Em um dos meus relatórios, por exemplo, registrei que a criança apresentava clareza e sequência lógica ao comunicar suas ideias, participava das rodas de conversa e demonstrava criatividade na contação de histórias e nas dramatizações.
Perceba que não estamos apenas dizendo que ela “se comunica bem”. Estamos contando como essa comunicação aparece.
Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações
É comum associarmos este campo imediatamente aos números, mas ele é muito mais amplo.
Podemos observar como a criança conta, compara, classifica e organiza objetos; percebe formas e tamanhos; acompanha a passagem do tempo; levanta hipóteses; observa fenômenos; procura explicações e demonstra curiosidade sobre o mundo.
No cotidiano da sala, isso pode aparecer em um jogo de números e quantidades, na organização do calendário, em uma receita, na observação de uma planta ou até em uma pergunta inesperada feita pela criança.
Em vez de registrar somente:
“Reconhece alguns números.”
podemos contar um pouco mais:
“Reconhece alguns dos números trabalhados e, com apoio de materiais concretos, estabelece relações entre número e quantidade. Nas atividades de classificação, utiliza critérios como cor, forma e tamanho.”
Novamente, é a observação que dá significado à escrita.
Uma mesma experiência pode revelar diferentes campos


Para mim, uma boa avaliação começa muito antes do momento de escrever o relatório.
Começa na observação.
É incrível o que podemos descobrir sobre uma criança no parque, em uma brincadeira de casinha, durante uma roda de conversa, em um jogo com regras ou enquanto ela tenta resolver um problema com um colega.
Nas atividades dirigidas, também precisamos ter clareza sobre o que queremos observar. E aprendi na prática que não é possível observar todas as crianças ao mesmo tempo.
Por isso, muitas vezes eu escolhia algumas crianças ou pequenos grupos para observar mais atentamente em determinada proposta. Em outros momentos, direcionava meu olhar para outras crianças.
Aos poucos, vamos construindo um retrato muito mais verdadeiro do percurso de cada uma.
Documentar para não depender apenas da memória
Observar é fundamental, mas precisamos encontrar uma maneira de guardar aquilo que observamos.
Já tentei utilizar formulários organizados por atividade e por dia. Para mim, não funcionou.
O que funcionava era o velho e prático caderno.
Eu colocava o nome de cada criança e reservava duas páginas para ela. Ao longo do período, anotava pequenas frases, falas, progressos, dificuldades e situações que considerava significativas. Fotografias, vídeos e produções das crianças também ajudavam a documentar esse percurso.
Quando chegava o momento de escrever a avaliação, eu não precisava tentar me lembrar de tudo o que havia acontecido durante meses. Tinha registros aos quais recorrer.
Isso não significa que todo professor precise ter um caderno como o meu. O instrumento pode ser uma ficha, um arquivo digital, fotografias acompanhadas de pequenas anotações ou qualquer outra forma de registro.
Cada professor encontra a maneira que funciona melhor na sua rotina.
O importante é documentar o suficiente para que, no momento da avaliação, não dependamos apenas da memória.
O portfólio na avaliação descritiva
O portfólio pode ser um grande aliado da avaliação descritiva porque ajuda a tornar visível o percurso da criança durante determinado período.
E também não existe uma única maneira de organizá-lo.
Já trabalhei com portfólios mais completos, nos quais os registros e as observações eram organizados considerando os campos de experiência, e também com formatos mais simples, reunindo uma seleção de atividades significativas e a avaliação descritiva ao final.
Mais importante do que o formato é aquilo que o portfólio consegue revelar.
Quando construído ao longo do período, ele não é apenas uma pasta com atividades bonitas. Fotografias, produções, falas, registros do professor e atividades selecionadas podem mostrar conquistas, tentativas, mudanças e aprendizagens que aconteceram durante aquele percurso.
Por isso, também precisamos ter intenção ao selecionar o que fará parte dele. Não se trata necessariamente de guardar tudo o que a criança fez, mas de escolher registros que ajudem a contar sua trajetória.
Em um dos formatos que utilizei, por exemplo, cada campo de experiência aparecia acompanhado de um foco para a observação e de registros referentes àquela criança. Em O eu, o outro e o nós, apareciam aspectos relacionados às interações, vínculos, autonomia e convivência. Em Corpo, gestos e movimentos, o olhar se voltava à exploração corporal, coordenação, equilíbrio e expressão pelo movimento.
Dessa forma, portfólio e avaliação descritiva não precisam ser dois trabalhos separados. Um pode ajudar a sustentar o outro.
O que observar nos cinco campos de experiência da Educação infantil
Acervo pessoal - Prô Edi




Acervo pessoal - Prô Edi
Quando as crianças produzem tintas a partir de alimentos, por exemplo, estão explorando cores e diferentes possibilidades de expressão, mas também quantidades, misturas e transformações.
Em uma proposta com poesia e dramatização, podem aparecer a linguagem oral, a imaginação, a expressão corporal, as relações com o grupo, a música e outras linguagens.
Até mesmo um jogo matemático pode revelar muito sobre convivência: esperar a vez, compreender regras, lidar com ganhar e perder e respeitar os colegas.
É justamente por isso que falamos em campos de experiência.
A experiência da criança não acontece dividida em cinco partes.
Como transformar a observação para a avaliação descritiva
Talvez esta seja uma das etapas que mais causam insegurança: observei, fiz meus registros... agora, como transformar tudo isso em texto?
Um caminho simples é partir da situação concreta.
Imagine que você tenha anotado:
Durante o reconto de uma história, lembrou os principais acontecimentos, organizou-os na sequência e acrescentou falas dos personagens.
Poderíamos escrever apenas:
“Participa das atividades de contação de histórias.”
Mas essa frase diz muito pouco sobre a criança.
A partir da observação, podemos registrar:
“Nos momentos de leitura e reconto, demonstra interesse pelas histórias e consegue recontar os principais acontecimentos respeitando sua sequência, acrescentando detalhes e falas dos personagens.”
Não criamos uma frase bonita apenas para preencher o relatório.
Transformamos uma observação em descrição.
Esse movimento ajuda a evitar avaliações genéricas.
Posso ter uma estrutura padrão para os relatórios?
Sim.
Eu mesma utilizava uma estrutura para organizar meus relatórios. Isso tornava o trabalho possível, principalmente quando havia muitas crianças para avaliar.
A estrutura, entretanto, era apenas o ponto de partida.
Ao escrever sobre cada criança, eu voltava ao meu caderno, às atividades, às fotografias e aos demais registros para acrescentar suas particularidades. Também gostava de citar experiências vivenciadas e relacioná-las ao que havia observado naquela criança.
Portanto, ter uma estrutura não significa produzir relatórios iguais.
O problema aparece quando a estrutura ocupa o lugar da criança e o mesmo texto poderia pertencer a qualquer aluno apenas trocando o nome.
Preciso escrever o nome dos cinco campos no relatório?
Não existe apenas uma maneira de organizar a avaliação.
Há instituições que estruturam o documento pelos cinco campos de experiência e outras que utilizam um texto corrido. O formato também pode mudar conforme a proposta da instituição.
O mais importante é compreender que citar o nome do campo não significa, por si só, contemplá-lo.
É possível escrever O eu, o outro e o nós e, em seguida, apresentar um texto tão genérico que pouco diga sobre aquela criança.
Da mesma maneira, um texto pode não trazer o título do campo e apresentar observações muito significativas sobre convivência, identidade, autonomia e relações.
Por isso, mais importante do que perguntar:
“Citei todos os campos?”
talvez seja perguntar:
“Meu texto mostra o que esta criança viveu, conquistou, experimentou e ainda está construindo?”
Os campos são os mesmos. As crianças, não.
Duas crianças podem participar da mesma atividade, com a mesma professora, no mesmo dia, e vivenciar aquela experiência de maneiras completamente diferentes.
Uma pode assumir a liderança de uma brincadeira. Outra pode observar por algum tempo antes de participar.
Uma pode contar uma história com muitos detalhes. Outra talvez esteja conquistando confiança para falar diante do grupo.
Uma resolve rapidamente determinado desafio. Outra experimenta diferentes possibilidades antes de encontrar uma solução.
Todas estão aprendendo, mas não estão percorrendo o mesmo caminho.
É por isso que uma avaliação descritiva não deveria ser apenas um conjunto de frases prontas.
Os campos de experiência da BNCC podem orientar nosso olhar. O portfólio pode ajudar a tornar o percurso visível. Nossas anotações podem guardar situações que a memória provavelmente esqueceria.
Mas nenhum desses instrumentos substitui o olhar atento do professor para aquela criança.
No final, talvez a pergunta mais importante seja muito simples:
Quem é esta criança que estou descrevendo?
Se a avaliação consegue responder a essa pergunta, os campos de experiência deixam de ser apenas itens de um documento e passam a nos ajudar naquilo que realmente importa: compreender e registrar o percurso de cada criança.
Campos de experiência BNCC: exemplo de avaliação e portfólio em PDF
Se você ainda tem dificuldade para visualizar como tudo isso pode aparecer na prática, preparei dois exemplos baseados em formas de registro que já utilizei:
Um exemplo completo de avaliação descritiva contemplando os campos de experiência e fichas de acompanhamento dos cinco campos utilizadas na organização de um portfólio.
São exemplos para serem usados simplesmente como inspiração. Cada professor organiza seus registros de uma maneira diferente, e principalmente, cada criança precisa ter sua própria história contada.
Baixar gratuitamente os exemplos de avaliação descritiva e portfólio
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